quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Futuro

Este é o texto em que pretendo basear meu monólogo no ETA


"Eu faço de tudo para me sentir bem com o pessoal da favela em que moro. Mas, uma hora, estarei mentindo para os outros e para mim mesma. Cada vez mais, a cidade me parece o lugar em que gostarei de passar o resto da minha vida. As ruas são mais largas, há gente por todos os lados e sempre vejo coisas novas. Tenho medo de parecer metida, mas fico ansiosa pelo domingo. Colocarei a roupa de que mais gosto e irei para o centro. Assistirei missa e, depois, tomarei sorvete na praça. Os cinemas, o Passeio Público, a Rua do Ouvidor, é a glória tudo isso!
Para todo mundo da favela, passo muito tempo no centro para fazer safadeza, para encontrar lugar para ficar longe de todo mundo e dos meus pais. No fundo, eu não me esqueço de onde vim, não tenho nojo. É por isso que me magoo quando me dizem essas coisas. Parece que estão me expulsando de uma vez e eu não queria que fosse assim.
         Estou perdendo as amigas da infância, pois quase todas já estão casadas. Eu sei que também deveria casar logo. Quero ter família, filhos e alguém com quem me sinta bem. Mas é coisa séria e não posso errar. Abri mão de muita coisa para estudar para viver em um lugar melhor. Todo mundo aqui também quer isso. Mas não adianta esperar que os outros nos deem coisas boas, pois vivemos em um buraco. Eles pensam que aqui só tem o que não presta.
         Eu preciso fazer alguma coisa para continuar a conquistar o que eu quero. Mas estou sozinha. Sei que uma hora vai acontecer. E apareceu o João. Não aguento. Ele é bonito, gentil e sinto que tem algo por mim que não é só interesse de homem. Mas também estou com medo. Seu eu me abrir demais, ele vai ser mais forte e perderei o controle da minha vida. Como vai ser depois? Ficam olhando para gente aqui na Estação do Lucas e dando risada.
         Não queria desconfiar nem um pouco dele, lá no fundo. Mas o João muda a conversa do nada, fica olhando em volta e começa a ser safado. Fico confusa, pois parece outra pessoal. Ele me pede  coisas absurdas, fora de hora! Eu não posso me entregar assim! Quem ele pensa que sou?! Por que não continua a ser tão doce. Poderia ficar muito mal falada, mas ficaria com o João se as coisas não forem como eu quero. Mas e se ele não quiser ficar comigo se conseguir fazer essa loucura antes? Ele tem um bom emprego e mostra interesse quando falo que quero fazer concurso público. Mas isso não é suficiente, eu acho.

         Não tenho coragem para falar essas coisas para ninguém. Meus pais não vão gostar do jeito do João, e minhas amigas vão me deixar. Ele está impaciente e estou enlouquecendo. Tem esse doutor que dá conselhos para mulheres nesse jornalzinho. Não aguento. Serei direta porque quero uma resposta urgente." 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Monólogo

"(...) os atores cuidam que a plateia não compreende sem que eles aumentem a carga e por isso se desmancham em gesticulação" (Aristóteles)



Dentro da filosofia do ETA, é erro grotesco a interpretação forçada - a exagerada, nem se fala... Já temos monólogo para a aula deste domingo e quero conhecer um pouco minha voz e cuidar dela. O objetivo é soar o mais realista possível. Nem tenho que atuar em grupo, a cena é minha.

domingo, 14 de setembro de 2014

Marcas

Você vê a beleza de dia, de noite e em seus sonhos. Mas te amaremos para sempre?  Eu te amarei para sempre? Você nos verá toda a sua vida. Ela pode ser longa e não encontrarmos outra maneira de te ver.

sábado, 13 de setembro de 2014

Alma

Ele cobriu os meus olhos com sua mão quando me viu de costas. Eu sabia que era alguém que eu amava. Eu o amo. Ele leu o meu diário e não pude fazer nada. Esse é nosso segredo, meu amor.

História do amor no Ocidente

"Precisamos de um mito para exprimir o fato obscuro e inconfessável de que a paixão está ligada à morte e leva à destruição qualquer que se entregue completamente a ela. Isso porque desejamos salvar a paixão e adoramos essa infelicidade, ao passo que as morais oficiais e a nossa razão as condenam" (Denis de Rougemont)


Eis um dos pontos altos de minha criatividade! "História do amor no Ocidente". Um livro perigoso para quem se apaixona, para quem é imaginativo ou para quem é os dois. O objeto do amor é o próprio sentimento e não uma pessoa. É uma das obras que valeram boa parte da minha formação. Tenho quase trinta páginas de anotações e não usei nada na faculdade. Porém, é um livro para o sentimento, para a poesia e, ao final de contas, para a vida. 
A proposta de Denis de Rougemont é bem interessante para quem estudou Trovadorismo na adolescência. Por baixo daquele sofrimento dedicado à dama inacessível há ideias de uma seita cristã, os cátaros, cujo grupo chegou a ser chamado de "Igreja de amor".  A seita foi completamente exterminada no século XIII pela Cruzada Albigense.
O que Rougemont quer provar é que a paixão, principalmente a paixão platônica (já "resolvida" na Era da Psicologia), é um sentimento "construído" por crenças religiosas. Para os cátaros, a vida do corpo era um princípio do Mal. Uma das maneiras de combatê-lo é uma visão sobre o amor na qual o homem, através de um ritual de vassalagem, submissão, jura dedicar seu sentimento à dama que lhe concede esse favor. Porém o amor desenvolvido em seu estado considerado puro, sem a interferência da realização sexual. Havia mesmo o desejo de adiantar a morte para continuar o gozo desse sentimento no espaço privilegiado do céu, em que não há mais o corpo humano:

"De todos os males, o meu difere; ele me agrada; regozijo-me com ele; meu mal é o que desejo e minha dor é meu bem-estar. Não vejo, portanto, de que me queixar, pois meu mal advém de minha vontade; é meu querer que se torna meu mal; tenho tanto gosto em querer assim que sofro prazerosamente, e há tanta alegria na minha dor que me delicio com a minha doença" (Chrétien de Troyes, século XII).

Os participantes desse culto não eram necessariamente marido e mulher. Dessa forma, uma das possíveis consequências da adesão ao catarismo era a condenação do casamento, uma vez que o fiel não poderia se unir sexualmente a ninguém. O casal herético poderia constituir elemento de um real triângulo amoroso. Com o fim de ressaltar esse caráter clandestino do amor cortês, quero fazer uma adaptação da citação que Rougemont faz de um trovador francês:


"Deus, é a Aurora! Como Ela vem depressa" Como gostaria, meu Deus, que a Noite não findasse, que meu amigo pudesse permanecer junto a mim, e que a Sentinela jamais anunciasse o romper da Aurora! Deus! É a Aurora. Como Ela vem depressa!"

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A demanda do Santo Graal

Há mais de dez anos, num semestre de literatura portuguesa na faculdade, minha professora disse que viveu uma fase de sensibilidade cristão por causa da leitura de uma versão portuguesa da Demanda do Santo Graal. O detalhe é que ela não era religiosa. Se isso aconteceu com ela, a professora ficava imaginando a força do livro na Idade Média.
A obra original foi escrita na França e Inglaterra e publicada em versos no século XII. No século seguinte, foi adaptada para a prosa e percorreu outras línguas européias. O manuscrito mais antigo em português data do século XV e foi uma tradução do francês. Porém, há especulações sobre indícios no texto que denunciam que foi escrito no século XIII.
Fernão Lopes, um prosador português, escreve no século XV e entendo com boa facilidade um texto seu que tenho à minha frente:

"Em três cousas, assinadamente, achamos, pela mor parte, que el-Rei D. Pedro de Portugal gastava seu tempo. A saber: em fazer justiça e desembargos do Reino; em monte e caça, de que era mui querençoso; e em danças e festas segundo aquele tempo, em que tomava grande sabor, que adur é agora para ser crido. E estas danças eram a som de umas longas que então usavam, sem curando de outro instrumento, posto que o aí houvesse; e se alguma vez lho queriam tanger, logo se enfadava dele e dizia que o dessem ao demo, e que lhe chamassem os trombeiros"


Já em D. Dinis (viveu entre os séculos XIII e XIV), um dos maiores trovadores portugueses, escrevia numa língua de mais difícil compreensão:


En gran coita, senhor,
que peior que mort'é,
vivo, per boa fé,
e polo voss'amor
esta coita sofr'eu
por vós, senhor, que eu

Vi polo meu gran mal,
e melhor mi será
de morrer por vós já
e, pois meu Deus non val,
esta coita sofr'eu
por vós, senhor, que eu

Polo meu gran mal vi,
e mais mi val morrer
ca tal coita sofrer,
pois por meu mal assi
esta coita sofr'eu
por vós, senhor, que eu

Vi por gran mal de mi,
pois tan coitad'and'eu.

(Detalhe: perceba-se que o sofrimento dá-se mais pelo amor em si do que pelo objeto do amor. Sobre isso, ler "História do amor no ocidente". Nele propõe-se que mesmo o perfil bastante comum do amor que envolve grande sofrimento tenha origem numa seita herética cristã e que os trovadores expressavam ideias da mesma disfarçadas em seus versos)


Voltando à Demanda, o texto em prosa é de linguagem muito parecida com essa, bem longe da do século XV. É um monumento literário do português. O que me chamou a atenção foi o erotismo absurdo da relação entre Galaaz, belíssimo cavaleiro da Távola Redonda que, em suas andanças para encontrar o Graal, tornar-se objeto de desejo de uma princesa. Ela se apaixona ao ponto de esquecer o decoro da época e praticamente o coloca em sua cama. Porém, para concluir a Demanda, o cavaleiro tinha que manter sua honestidade e, no limite, sua castidade. Galaaz é justamente quem chega à relíquia. Ele não toca na princesa e essa se mata, ainda que o suicida era visto como condenado ao inferno. O curioso é que um texto com forte conteúdo de propaganda religiosa deixe passar histórias com um erotismo quase subterrâneo, inconsciente. Quer dizer, no afã de pintar o pecado, o autor poderia ter feito concessão a alguma expressão do desejo (até geral), como se fosse muito difícil reprimi-lo completamente. Uma expressão de erotismo que não perde sua atualidade nem um livro como "O erotismo", de Georges Bataille, ex-católico adolescente e, depois, escritor de romances de grande libertinagem. O erotismo dos apaixonados. Um trecho e um pdf da versão portuguesa da Demanda:

"Se nam for bem menfestado, ca em tam alto serviço de Deus como este nom deve entrar se nam for bem menfestado e  bem comungado e limpo e purgado de todolos cajões e de pecado mortal. Ca esta demanda nom é de taes obras, ante é demanda das puridades e das cousas ascondidas de Nosso Senhor"

http://www.4shared.com/web/preview/pdf/M0TqzfTu


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Novela de cavalaria

Ano que vem completam-se 500 anos do nascimento de Santa Teresa de Ávila, monja, mística, santa, doutora da igreja, cuja autobiografia, chamada “Livro da Vida”, é o segunda clássico mais lido na Espanha depois de Dom Quixote.
Quero fazer alguma representação baseada nessa figura. Conheço o Livro da Vida e tenho a tradução de 2014 da Obra Completa.  Em meus projetos de leitura, passarei dos romances russos para textos do Siglo de Oro da literatura espanhola. Penso em Teresa de Ávila, Dom Quixote e em um romance de cavalaria.  A santa alimentou sua imaginação não só com a leitura de obras religiosas, mas também com as de novelas de cavalaria.
Uma das novelas de cavalaria mais famosas entre o público luso-espanhol foi “Amadis de Gaula”. As histórias que compõem esse livro tiveram sua primeira edição definitiva em 1508, em Zaragoza. É famosa a disputa pela autoria entre portugueses e espanhóis. Porém, o primeiro texto de que se dispõe é o em língua espanhola.  Está disponível na net o livro integral: http://www.biblioteca-antologica.org/wp-content/uploads/2009/09/RODRIGUEZ-de-MONTALVO-Amad%C3%ADs-de-Gaula.pdf
São mais de 900 páginas e 133 capítulos! Pela reação de uma leitora – que adorou a novela -, tive a impressão de que são centenas de personagens! Li algumas linhas e me sinto seguro para continuar quando tiver disponibilidade.  Um trecho inicial:


“Considerando los sabios antiguos que los grandes hechos de las armas en escrito dejaron, cuán breve fue aquello que en escrito de verdade en ellos pasó, así como las batallas de nuestro tiempo que por nos fueron vistas nos dieron clara experiencia y noticia, quiseron sobre algún cimiento de verdade componer tales y tan extrañas hazañas con que no solamente pensaron dejar em perpetua memoria a los que aficionados fueron, mas aquéllos por quien leídas fuesen em grande admiración, como por las antiguas historias de los griegos y troyanos y otros que batallaron, parece, por escrito.”