Há mais de dez anos, num semestre de literatura portuguesa na faculdade, minha professora disse que viveu uma fase de sensibilidade cristão por causa da leitura de uma versão portuguesa da Demanda do Santo Graal. O detalhe é que ela não era religiosa. Se isso aconteceu com ela, a professora ficava imaginando a força do livro na Idade Média.
A obra original foi escrita na França e Inglaterra e publicada em versos no século XII. No século seguinte, foi adaptada para a prosa e percorreu outras línguas européias. O manuscrito mais antigo em português data do século XV e foi uma tradução do francês. Porém, há especulações sobre indícios no texto que denunciam que foi escrito no século XIII.
Fernão Lopes, um prosador português, escreve no século XV e entendo com boa facilidade um texto seu que tenho à minha frente:
"Em três cousas, assinadamente, achamos, pela mor parte, que el-Rei D. Pedro de Portugal gastava seu tempo. A saber: em fazer justiça e desembargos do Reino; em monte e caça, de que era mui querençoso; e em danças e festas segundo aquele tempo, em que tomava grande sabor, que adur é agora para ser crido. E estas danças eram a som de umas longas que então usavam, sem curando de outro instrumento, posto que o aí houvesse; e se alguma vez lho queriam tanger, logo se enfadava dele e dizia que o dessem ao demo, e que lhe chamassem os trombeiros"
Já em D. Dinis (viveu entre os séculos XIII e XIV), um dos maiores trovadores portugueses, escrevia numa língua de mais difícil compreensão:
En gran coita, senhor,
que peior que mort'é,
vivo, per boa fé,
e polo voss'amor
esta coita sofr'eu
por vós, senhor, que eu
Vi polo meu gran mal,
e melhor mi será
de morrer por vós já
e, pois meu Deus non val,
esta coita sofr'eu
por vós, senhor, que eu
Polo meu gran mal vi,
e mais mi val morrer
ca tal coita sofrer,
pois por meu mal assi
esta coita sofr'eu
por vós, senhor, que eu
Vi por gran mal de mi,
pois tan coitad'and'eu.
(Detalhe: perceba-se que o sofrimento dá-se mais pelo amor em si do que pelo objeto do amor. Sobre isso, ler "História do amor no ocidente". Nele propõe-se que mesmo o perfil bastante comum do amor que envolve grande sofrimento tenha origem numa seita herética cristã e que os trovadores expressavam ideias da mesma disfarçadas em seus versos)
Voltando à Demanda, o texto em prosa é de linguagem muito parecida com essa, bem longe da do século XV. É um monumento literário do português. O que me chamou a atenção foi o erotismo absurdo da relação entre Galaaz, belíssimo cavaleiro da Távola Redonda que, em suas andanças para encontrar o Graal, tornar-se objeto de desejo de uma princesa. Ela se apaixona ao ponto de esquecer o decoro da época e praticamente o coloca em sua cama. Porém, para concluir a Demanda, o cavaleiro tinha que manter sua honestidade e, no limite, sua castidade. Galaaz é justamente quem chega à relíquia. Ele não toca na princesa e essa se mata, ainda que o suicida era visto como condenado ao inferno. O curioso é que um texto com forte conteúdo de propaganda religiosa deixe passar histórias com um erotismo quase subterrâneo, inconsciente. Quer dizer, no afã de pintar o pecado, o autor poderia ter feito concessão a alguma expressão do desejo (até geral), como se fosse muito difícil reprimi-lo completamente. Uma expressão de erotismo que não perde sua atualidade nem um livro como "O erotismo", de Georges Bataille, ex-católico adolescente e, depois, escritor de romances de grande libertinagem. O erotismo dos apaixonados. Um trecho e um pdf da versão portuguesa da Demanda:
"Se nam for bem menfestado, ca em tam alto serviço de Deus como este nom deve entrar se nam for bem menfestado e bem comungado e limpo e purgado de todolos cajões e de pecado mortal. Ca esta demanda nom é de taes obras, ante é demanda das puridades e das cousas ascondidas de Nosso Senhor"
http://www.4shared.com/web/preview/pdf/M0TqzfTu
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Novela de cavalaria
Ano
que vem completam-se 500 anos do nascimento de Santa Teresa de Ávila, monja,
mística, santa, doutora da igreja, cuja autobiografia, chamada “Livro da Vida”,
é o segunda clássico mais lido na Espanha depois de Dom Quixote.
Quero
fazer alguma representação baseada nessa figura. Conheço o Livro da Vida e tenho
a tradução de 2014 da Obra Completa. Em meus
projetos de leitura, passarei dos romances russos para textos do Siglo de Oro
da literatura espanhola. Penso em Teresa de Ávila, Dom Quixote e em um romance
de cavalaria. A santa alimentou sua imaginação
não só com a leitura de obras religiosas, mas também com as de novelas de
cavalaria.
Uma
das novelas de cavalaria mais famosas entre o público luso-espanhol foi “Amadis
de Gaula”. As histórias que compõem esse livro tiveram sua primeira edição definitiva
em 1508, em Zaragoza. É famosa a disputa pela autoria entre portugueses e
espanhóis. Porém, o primeiro texto de que se dispõe é o em língua espanhola. Está disponível na net o livro integral: http://www.biblioteca-antologica.org/wp-content/uploads/2009/09/RODRIGUEZ-de-MONTALVO-Amad%C3%ADs-de-Gaula.pdf
São
mais de 900 páginas e 133 capítulos! Pela reação de uma leitora – que adorou a
novela -, tive a impressão de que são centenas de personagens! Li algumas
linhas e me sinto seguro para continuar quando tiver disponibilidade. Um trecho inicial:
“Considerando
los sabios antiguos que los grandes hechos de las armas en escrito dejaron,
cuán breve fue aquello que en escrito de verdade en ellos pasó, así como las
batallas de nuestro tiempo que por nos fueron vistas nos dieron clara
experiencia y noticia, quiseron sobre algún cimiento de verdade componer tales
y tan extrañas hazañas con que no solamente pensaron dejar em perpetua memoria
a los que aficionados fueron, mas aquéllos por quien leídas fuesen em grande
admiración, como por las antiguas historias de los griegos y troyanos y otros
que batallaron, parece, por escrito.”
domingo, 7 de setembro de 2014
Estúdio de Treinamento Artístico - ETA
Comecei
hoje o módulo 1 do curso de teatro do Estúdio de Treinamento Artístico
(ETA). Eu suspeitava que haveria uma
espécie de eliminação de estudantes logo na primeira aula. O professor, mesmo
em tom amigável, descreveu quais as possibilidades de carreira para um ator.
Enquanto profissão, uma das mais ingratas possíveis. Aí, julgo eu, em termos da
cidade de São Paulo.
Em
não poucos momentos, ele, ainda em tom amigável, perguntava se alguém queria
desistir. Todos se mantiveram em sala, depois dessa explanação e, depois,
começaram os exercícios. Para quem está com um joelho em fisioterapia, até que
eu corri e tive tração na sola dos sapatos na movimentação que todos fazíamos
no palco.
Primeiramente, houve um reconhecimento
do espaço. Caminhávamos por todos os lados, todos ao mesmo tempo. Depois, fomos
orientados a fixar o olhar nos rostos das pessoas com quem cruzávamos nessa
movimentação. A correria ficou por conta
da simulação de entrada em metrô ou trem em horário de pico. Imitamos o que
entendíamos serem palhaço.
Por
último, e o exercício mais complicado para mim, nos abraçávamos em duplas ou
trios. Após algum tempo, havia troca. Tinha corpos com almas dentro e eu não me
toquei em interagir com o que eu poderia pensar sobre meus companheiros. Transformo
emoções oriundas de situações inusitadas em objeto para reflexão estética e
criação artística. Eu me transformo em dois: o que sente e o que analisa o que
sente. Mas lá estavam corpos e almas disponíveis, assim como meu corpo e alma. Ainda
bem que há muito o que pensar de todos os elementos trabalhados em aula e esse,
dos abraços, não passará desapercebido.
Recebemos uma pequena apostila com
orientações gerais visando à formação de uma visão de carreira por parte do
aluno que está iniciando. Tudo o que
fizermos em aula deverá ser repetido em casa. E já temos pesquisa teórica para
o próximo domingo sobre as origens do teatro, cinema e televisão. O professor
quer material escrito que comprove que houve pesquisa e leitura. Agora mesmo
verificarei bibliografia viável de ser lida até a aula e onde posso encontrá-la.
Na
terceira ou quarta aula serão formados os grupos já se pensando na montagem do
espetáculo que encerrará o módulo. Desde minha matrícula, há quase dois meses,
organizei as informações sobre o curso e minha própria capacidade enquanto
projeto de ator. Após isso, defini como objetivo principal a captação de vinte
pessoas, a vinte reais o ingresso, para assistirem ao espetáculo do meu grupo
em duas apresentações. Se não conseguir reunir essas pessoas, tenho que
custear. Dependendo do conflito que o aluno tenha disposição de levar à frente
para não pagar, pode ser levado a juízo, acumulando razoável soma de dinheiro a
ressarcir à escola.
Mas
o ETA, em linhas gerais, pensa bem mais em formar pessoas que ganhem a vida levando o teatro
como coisa séria do que em formar “cobradores de impostos”. Lógico que tem que trazer o público. Mas, por
outro lado, são ossos do ofício, é um aspecto do processo entre outros. É parte
do show.
Uma
razoável autocrítica pode fazer com que não se acredite no próprio espetáculo e
a falta desse brilho nos olhos pode ser algo a desanimar as pessoas em comprar
os ingressos. Você quer fazer o melhor e saberá que estará vendendo um bom
produto. Estou usando um vocabulário que sugere um esvaziamento do aspecto artístico
do teatro. Porém, para quem pensa em carreira, deve-se aliar o desejo de
oferecer – e se oferecer – o melhor com vistas a quem queira ver o melhor. O teatro, no ocidente, tem mais de dois mil
anos, e o público faz parte dessa história. Em suma, a arte dramática tem
valor. A questão é quem reconheça isso ou não.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Lamentação
“Pereceu o esplendor de Israel nas tuas alturas!
Como caíram
os heróis?
Não o publiqueis em Gat,
não o anunciareis nas ruas de Ascalon,
que não se alegrem as filhas dos filisteus,
que não exultem as filhas dos incircuncisos!
Montanhas de Gelboé,
nem orvalho nem chuva se derramem sobre vós,
Campos férteis,
pois foi maculado o escudo dos heróis!
O escudo de Saul não foi ungido com óleo,
mas com o sangue dos feridos,
com a gordura dos guerreiros;
o arco de Jônatas jamais hesitou,
Nem a espada de Saul voltou inútil.
Saul e Jônatas, amados e encantadores,
na vida e na morte não se separaram.
Mais do que as águias eram velozes,
mais do que os leões eram fortes.
Filhas de Israel, chorai sobre Saul,
que vos vestiu de escarlate e de adornos,
que adornou com ouro
os vossos vestidos.
Como caíram os heróis
no meio do combate?
Jônatas, ferido de morte sobre tuas alturas.
que sofrimento tenho por ti, meu irmão Jônatas.
Tu tinhas para mim tanto encanto,
a tua amizade me era mais cara
do que o amor das mulheres.
Como caíram os heróis
E pereceram as armas de guerra?”
(II Samuel:
capítulo 1, versículos 19-27, versão mais atual da Bíblia de Jerusalém)
A
lamentação era um tipo de composição poética utilizado nos exercícios de tiro
ao arco no contexto da formação da teocracia guerreira de Israel no Oriente
Médio bíblico. O texto transcrito acima é atribuído ao então fugitivo do rei
Saul, Davi, o monarca que consolidaria o estado. Apesar de a relação entre o
rei e esse militar, poeta e cortesão ter tido altos e baixos, nunca Davi quis
se vingar nele nos tempos em que o rei procurava mata-lo por medo de perder o
trono.
Quanta
a Jônatas, era filho de Saul e a expressão da amizade entre ele e Davi pode ser
tomada como um primor literário. O escritor leva ao limite a intensidade de uma
amizade ao ponto de a mesma superar o relacionamento íntimo com mulheres; ao
ponto de a leitura superar os limites até de nossa época ao sugerir um
sentimento homoerótico.
O
primeiro estado de Israel foi consolidado em duzentos anos de guerra,
concluídos no reinado de Davi. O rei Saul, em decadência, travava uma batalha
contra os velhos adversários filisteus, na qual Israel foi derrotado. Saul se matou
para manter o orgulho de não ser morto por um povo que ele desprezava ,e seu
filho Jônatas também morreu.
Literariamente,
a maior parte da Bíblia é um texto fraco, redigido sem nenhum interesse
artístico aparentemente. No entanto um livro como Cantares é um dos grandes
poemas eróticos da cultura ocidental. Sem contar livros sapienciais dramáticos como
Jó e pessimistas como Eclesiastes.
Fora
esses livros, pode levar uma centena de páginas para que se identifique qualidade
literária. Porém, surgem trechos que se tornam atuais.
Também
ficamos desolados quando perdemos nossos heróis, representados naqueles cuja
influência positiva em nossas vidas constitui nossas melhores lembranças. Estou
falando em artistas, intelectuais, esportistas, etc.
Quando se fala em cidades dominadas
pelos filisteus como Gat, Ascalon e Gelboé, para um leitor, não necessariamente
religioso, e com razoável repertório de literatura clássica a menção a esses
lugares, por si só, pode não ter importância. No entanto, é um espaço
relacionado àqueles heróis bíblicos. Também aos heróis de todos os tempos; aos
nossos heróis.
A grandeza desses homens é realçada ao
se deter na dignidade na queda de quem fora à luta para ganhar. O pranto é o
culto devido a eles e a alegria do inimigo não tem razão de ser, pois mente a
respeito da lembrança que queremos ter de nossos heróis, dos nossos modelos.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Admiração
O
dia está acabando. Por favor, compartilhe comigo seus sentimentos reais. Estão nos
seus olhos, que brilham. É só por mim. Posso nunca amar aqueles que realmente
são bons; me tornar melhor. Só aqueles que estão por aí, como eu.
Quem é bom age de coração? Se machuca? Quero saber até quando você pode me abraçar. Eu acredito em você.
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Amanhã?
Você
não vive nesse tempo e não encontra espaço para o seu corpo e nem para o seu
espírito. Mas ainda não quer desligar tudo. E quem pode ligar? Para sempre?
Você pode nem descobrir se essas são as perguntas certas. O fracasso é mais
garantido do que a esperança.
Esquecer
Neste
momento penso em sua morte. É claro que estou triste. Mas você mostrou um lado
seu que tive a sorte de perceber e entender. Você realmente era uma pessoa boa.
Eu gostava de saber que havia alguém comigo que não se importava em dividir a
própria alma para ajudar os outros. E gostava, também, da sensação de não ter
uma admiração ilusória por você. Nem o amor me impediu de ver que você
transformava as pessoas a quem eu desprezava. Eu deixei de ter vergonha do meu
orgulho, pois você não se importava comigo quando ajudava o mendigo que
passava. Fazia isso sem o menor sinal de presunção. Era como se pedir licença
para alguém dar passagem.
Até
um cachorro entende que sofro. Se disser que o mundo ficou pior porque você foi
embora também não vai importar. É algo além do meu egoísmo; não terei a exata
medida do que fez, pois não fui a pessoa necessitada.
Como amizades e relacionamentos de
conveniência, há chance de eu esquecer muito do que estou dizendo. Mesmo
sabendo que te amava, talvez eu acabe me tornando uma pessoa melhor se lembrar
que você não era escrava da sua solidão.
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