domingo, 7 de setembro de 2014

Estúdio de Treinamento Artístico - ETA




Comecei hoje o módulo 1 do curso de teatro do Estúdio de Treinamento Artístico (ETA).  Eu suspeitava que haveria uma espécie de eliminação de estudantes logo na primeira aula. O professor, mesmo em tom amigável, descreveu quais as possibilidades de carreira para um ator. Enquanto profissão, uma das mais ingratas possíveis. Aí, julgo eu, em termos da cidade de São Paulo.
Em não poucos momentos, ele, ainda em tom amigável, perguntava se alguém queria desistir. Todos se mantiveram em sala, depois dessa explanação e, depois, começaram os exercícios. Para quem está com um joelho em fisioterapia, até que eu corri e tive tração na sola dos sapatos na movimentação que todos fazíamos no palco.
         Primeiramente, houve um reconhecimento do espaço. Caminhávamos por todos os lados, todos ao mesmo tempo. Depois, fomos orientados a fixar o olhar nos rostos das pessoas com quem cruzávamos nessa movimentação.  A correria ficou por conta da simulação de entrada em metrô ou trem em horário de pico. Imitamos o que entendíamos serem palhaço.
Por último, e o exercício mais complicado para mim, nos abraçávamos em duplas ou trios. Após algum tempo, havia troca. Tinha corpos com almas dentro e eu não me toquei em interagir com o que eu poderia pensar sobre meus companheiros. Transformo emoções oriundas de situações inusitadas em objeto para reflexão estética e criação artística. Eu me transformo em dois: o que sente e o que analisa o que sente. Mas lá estavam corpos e almas disponíveis, assim como meu corpo e alma. Ainda bem que há muito o que pensar de todos os elementos trabalhados em aula e esse, dos abraços, não passará desapercebido.
         Recebemos uma pequena apostila com orientações gerais visando à formação de uma visão de carreira por parte do aluno que está iniciando.  Tudo o que fizermos em aula deverá ser repetido em casa. E já temos pesquisa teórica para o próximo domingo sobre as origens do teatro, cinema e televisão. O professor quer material escrito que comprove que houve pesquisa e leitura. Agora mesmo verificarei bibliografia viável de ser lida até a aula e onde posso encontrá-la.
Na terceira ou quarta aula serão formados os grupos já se pensando na montagem do espetáculo que encerrará o módulo. Desde minha matrícula, há quase dois meses, organizei as informações sobre o curso e minha própria capacidade enquanto projeto de ator. Após isso, defini como objetivo principal a captação de vinte pessoas, a vinte reais o ingresso, para assistirem ao espetáculo do meu grupo em duas apresentações. Se não conseguir reunir essas pessoas, tenho que custear. Dependendo do conflito que o aluno tenha disposição de levar à frente para não pagar, pode ser levado a juízo, acumulando razoável soma de dinheiro a ressarcir à escola.
Mas o ETA, em linhas gerais, pensa bem mais em formar  pessoas que ganhem a vida levando o teatro como coisa séria do que em formar “cobradores de impostos”.  Lógico que tem que trazer o público. Mas, por outro lado, são ossos do ofício, é um aspecto do processo entre outros. É parte do show.

Uma razoável autocrítica pode fazer com que não se acredite no próprio espetáculo e a falta desse brilho nos olhos pode ser algo a desanimar as pessoas em comprar os ingressos. Você quer fazer o melhor e saberá que estará vendendo um bom produto. Estou usando um vocabulário que sugere um esvaziamento do aspecto artístico do teatro. Porém, para quem pensa em carreira, deve-se aliar o desejo de oferecer – e se oferecer – o melhor com vistas a quem queira ver o melhor.  O teatro, no ocidente, tem mais de dois mil anos, e o público faz parte dessa história. Em suma, a arte dramática tem valor. A questão é quem reconheça isso ou não. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Lamentação

“Pereceu o esplendor de Israel nas tuas alturas!
 Como caíram os heróis?

Não o publiqueis em Gat,
não o anunciareis nas ruas de Ascalon,
que não se alegrem as filhas dos filisteus,
que não exultem as filhas dos incircuncisos!

Montanhas de Gelboé,
nem orvalho nem chuva se derramem sobre vós,
Campos férteis,
pois foi maculado o escudo dos heróis!

O escudo de Saul não foi ungido com óleo,
mas com o sangue dos feridos,
com a gordura dos guerreiros;
o arco de Jônatas jamais hesitou,
Nem a espada de Saul voltou inútil.

Saul e Jônatas, amados e encantadores,
na vida e na morte não se separaram.
Mais do que as águias eram velozes,
mais do que os leões eram fortes.

Filhas de Israel, chorai sobre Saul,
que vos vestiu de escarlate e de adornos,
que adornou com ouro
os vossos vestidos.

Como caíram os heróis
no meio do combate?
Jônatas, ferido de morte sobre tuas alturas.
que sofrimento tenho por ti, meu irmão Jônatas.

Tu tinhas para mim tanto encanto,
a tua amizade me era mais cara
do que o amor das mulheres.
Como caíram os heróis
E pereceram as armas de guerra?” 

(II Samuel: capítulo 1, versículos 19-27, versão mais atual da Bíblia de Jerusalém)







A lamentação era um tipo de composição poética utilizado nos exercícios de tiro ao arco no contexto da formação da teocracia guerreira de Israel no Oriente Médio bíblico. O texto transcrito acima é atribuído ao então fugitivo do rei Saul, Davi, o monarca que consolidaria o estado. Apesar de a relação entre o rei e esse militar, poeta e cortesão ter tido altos e baixos, nunca Davi quis se vingar nele nos tempos em que o rei procurava mata-lo por medo de perder o trono.
Quanta a Jônatas, era filho de Saul e a expressão da amizade entre ele e Davi pode ser tomada como um primor literário. O escritor leva ao limite a intensidade de uma amizade ao ponto de a mesma superar o relacionamento íntimo com mulheres; ao ponto de a leitura superar os limites até de nossa época ao sugerir um sentimento homoerótico.
O primeiro estado de Israel foi consolidado em duzentos anos de guerra, concluídos no reinado de Davi. O rei Saul, em decadência, travava uma batalha contra os velhos adversários filisteus, na qual Israel foi derrotado. Saul se matou para manter o orgulho de não ser morto por um povo que ele desprezava ,e seu filho Jônatas também morreu.

Literariamente, a maior parte da Bíblia é um texto fraco, redigido sem nenhum interesse artístico aparentemente. No entanto um livro como Cantares é um dos grandes poemas eróticos da cultura ocidental. Sem contar livros sapienciais dramáticos como Jó e pessimistas como Eclesiastes.
Fora esses livros, pode levar uma centena de páginas para que se identifique qualidade literária. Porém, surgem trechos que se tornam atuais.
Também ficamos desolados quando perdemos nossos heróis, representados naqueles cuja influência positiva em nossas vidas constitui nossas melhores lembranças. Estou falando em artistas, intelectuais, esportistas, etc.
         Quando se fala em cidades dominadas pelos filisteus como Gat, Ascalon e Gelboé, para um leitor, não necessariamente religioso, e com razoável repertório de literatura clássica a menção a esses lugares, por si só, pode não ter importância. No entanto, é um espaço relacionado àqueles heróis bíblicos. Também aos heróis de todos os tempos; aos nossos heróis.

         A grandeza desses homens é realçada ao se deter na dignidade na queda de quem fora à luta para ganhar. O pranto é o culto devido a eles e a alegria do inimigo não tem razão de ser, pois mente a respeito da lembrança que queremos ter de nossos heróis, dos nossos modelos.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Admiração

O dia está acabando. Por favor, compartilhe comigo seus sentimentos reais. Estão nos seus olhos, que brilham. É só por mim. Posso nunca amar aqueles que realmente são bons; me tornar melhor. Só aqueles que estão por aí, como eu. 
Quem é bom age de coração? Se machuca? Quero saber até quando você pode me abraçar. Eu acredito em você.  

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Amanhã?

Você não vive nesse tempo e não encontra espaço para o seu corpo e nem para o seu espírito. Mas ainda não quer desligar tudo. E quem pode ligar? Para sempre? Você pode nem descobrir se essas são as perguntas certas. O fracasso é mais garantido do que a esperança. 

Esquecer

Neste momento penso em sua morte. É claro que estou triste. Mas você mostrou um lado seu que tive a sorte de perceber e entender. Você realmente era uma pessoa boa. Eu gostava de saber que havia alguém comigo que não se importava em dividir a própria alma para ajudar os outros. E gostava, também, da sensação de não ter uma admiração ilusória por você. Nem o amor me impediu de ver que você transformava as pessoas a quem eu desprezava. Eu deixei de ter vergonha do meu orgulho, pois você não se importava comigo quando ajudava o mendigo que passava. Fazia isso sem o menor sinal de presunção. Era como se pedir licença para alguém dar passagem.
Até um cachorro entende que sofro. Se disser que o mundo ficou pior porque você foi embora também não vai importar. É algo além do meu egoísmo; não terei a exata medida do que fez, pois não fui a pessoa necessitada.

         Como amizades e relacionamentos de conveniência, há chance de eu esquecer muito do que estou dizendo. Mesmo sabendo que te amava, talvez eu acabe me tornando uma pessoa melhor se lembrar que você não era escrava da sua solidão. 

Leitura de duas ou mais obras ao mesmo tempo

Simplesmente não consigo ler apenas um livro. Todos os dias leio ao menos dois. A leitura seguida me cansa, minha concentração diminui e acaba soando como perda de tempo para mim .
No entanto, já exagerei e cheguei a ler cinco ao mesmo tempo. Como estava em uma fase de muita curiosidade intelectual, a ansiedade em cumprir um plano rigoroso para levar a cabo ambições desse tipo não chegava a me prejudicar. Já li em fórum de internet relato de quem lia até sete livros de uma vez.
Com o tempo, várias ocupações tiram boa parte do tempo e, aí, sim, precisei diminuir o ritmo. À medida que concluía a leitura de uma obra, não a substituía. O fim era diminuir a quantidade de livros e, hoje, está bastante satisfatório uma leitura obrigatória, a bíblia, e outra dentro de um projeto maior que inclui várias outras obras. Atualmente, me dedico a romances russos. Estou em Anna Kariênina, de Tolstói, e já adquiri Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. O último será "Crime e Castigo", desse mesmo autor.
Um dos apelos de ler dois ou mais livros é o de tal hábito ser escolha do leitor. Em um curso de letras, isso poderia ser compulsório por ocasião de se estar matriculado, ao mesmo tempo, em duas disciplinas de literatura.

Quando concluir o ciclo de romances russos, penso em ler obras do Século de Ouro espanhol (XV-XVII). Tal projeto é para valorizar a leitura de livros de Santa Teresa de Ávila, personalidade na qual pretendo basear um monólogo previsto para o terceiro semestre do meu curso de teatro. Se Livro da Vida é um clássico da literatura universal, Castelo Interior ou As Moradas é considerada a melhor obra da monja carmelita. Nessa lista de livros consta um dos maiores livros já publicados, Dom Quixote e, de preferência, quero ler um romance de cavalaria escrito em espanhol e com tradução em português. Mas está difícil encontrar algum por ora. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Entrelaço

Ontem assisti ao meu primeiro espetáculo de dança. Um amigo me convidou para ver um trabalho chamado “Entreatos” e pude melhorar um pouco minha percepção da ideia de artes cênicas. No começo, os dançarinos tinham posições definidas no palco e falavam. Muito parecido com teatro propriamente dito. Após, houve quase uma hora de dança, com sete pessoas no palco. Tais falas eu vi como uma espécie de temas musicais, os quais serão desenvolvidos na apresentação – aí, suponho, seja em que linguagem for. Artes cênicas, enfim, como algo mais amplo que o teatro.
Quanto ao elemento de linguagem artística como definidor da dança, ele também se destacava por conta de a música estar sempre presente, como uma poesia interpretada pelos dançarinos. Admito que não me impressionou como a fruição de outras obras de arte com que tenho mais familiaridade. Admito, ainda, que essa relativa indiferença se deva, suponho que em grande medida, a um gosto não educado para a dança. No entanto, eu não preciso me penalizar tanto, logo de início, pois Drummond gostava dos Trapalhões e João Cabral não gostava de música. 
Creio que há uma esperança, de imediato, para "entender" o espetáculo. Meu parâmetro de comparação é um vídeo de uma apresentação de butô, da qual gosto muitíssimo. O cotejo dos dois espetáculos pode apurar algo em mim a respeito da visão sobre a arte da dança. 

Tecnicamente, não há muito o que acrescentar. Artistas com preparo físico para executarem movimentos muito largos e apoiarem o corpo uns dos outros no alto.