segunda-feira, 14 de março de 2022

OS SUBTERRÂNEOS

Estou tirando proveito da leitura de Os subterrâneos, de Jack Kerouac, ao desistir de sequências de informações em uma gramática realista. Os parágrafos são longos e a pontuação de pausa dentro deles é rara. Quando você se entrega a um texto desse, se vê dentro de diversos ambientes retratados por Kerouac quase que ao mesmo tempo.

No romance, os subterrâneos são os frequentadores do underground de São Francisco na primeira metade da década de 50, no mínimo. É uma mistura de jazz, drogas, sexo e literatura. Para mim é mais fácil identificar esse movimento a partir da referência a escritores beatniks como o próprio Jack Kerouac. Não consigo fazer um desenho mental de um hipster. O hipster é mais o personagem de um romance como On the road, por exemplo. Ao mesmo tempo que ele está atrás de experiências que a vida concreta pode oferecer, também está ligado a um grupo intelectual.

Eu tenho uma relação dúbia com os hipsters de On the road e de Os subterrâneos. Tenho afinidade intelectual por conta das influências literárias. Mas isso já é relativo quando o assunto é comportamento. Se na convivência deles há criatividade também há a decadência da sociedade capitalista. É o caso do uso de drogas para conseguir experiências ou inspiração para criar. Apesar de que acho a sociabilidade deles em torno da cultura em si algo maravilhoso. Tive o privilégio de um tipo de convivência como esse sem precisar compartilhar o aspecto não tão criativo. No meio gótico, eu identificava os elementos mais interessados em conversar sobre cultura e chegava a reuni-los em saraus.

sábado, 12 de março de 2022

BLADE RUNNER

 Filme com fotografia e ambientação maravilhosos. Sempre à noite e com chuva. Esses são os elementos que acho perfeitos no filme Blade runner. Eu o vi logo após da leitura de Androides sonham com ovelhas elétricas?, romance em que ele se baseia em alguma medida.

O que eu acho que ficou a dever no filme foi um problema de roteiro. A disparidade de força física entre os androides e os humanos era muito grande para o caçador de recompensas Rick Deckard conseguir sobreviver pelo menos ao segundo dos humanoides - ele enfrentou quatro. 

Confesso que fiquei torcendo para o romance entre a androide Rachael e Deckard. A relação foi turbulenta e com final abrupto no livro, mas no filme o tratamento foi para que o romance se desenvolvesse. Dentro da minha fantasia, as inteligências artificiais merecem uma chance. No filme de Spielberg, I.A., pode-se considerar que, após conviver com os humanos, elas sobrevivem a eles por coisa de milênio. Ao ponto de investigarem, a partir das memórias do último androide vivo que esteve conosco, como nós éramos.

terça-feira, 8 de março de 2022

MIDNIGHT ODYSSEY



Enquanto realizo um trabalho que não exige muita reflexão, sobra concentração para ouvir um pouco de música. Fiz uma escolha feliz ao encontrar algo que me desse prazer. Eu já conhecia o álbum Funerals from de astral sphere, do Midnight Odyssey, de uma ou duas audições. Ele reúne o clima sutil de um teclado de fundo e camadas também sutis do instrumental e do vocal do black metal. Pelo menos nesse disco, essa combinação me agrada. E olha que o álbum tem mais de duas horas

O caminho que eu percorri para chegar no disco do Midnigh Odyssey foi uma pesquisa que fiz há muitos anos dentro do gênero do funeral doom metal. Na época, estava escrevendo minha tese de doutorado, que tratava de temas sombrios colocados em relevância pelo romantismo. Depois de um dia cansativo de trabalho, precisava de um ambiente estimulante para estudar e escrever. Desligava todas as lâmpadas, acendia velas por toda a casa e em torno do meu material de estudo e gastava um tempo pesquisando alguma trilha sonora. Havia já um álbum de que gostava muito, o Antithesis of light, do Evoken, na linha de som de que estou falando. A partir dele, montei uma lista com os nomes básicos do estilo como Thergothon, Disembowelment, Ahab, Skepticism. Há alguns não mencionados de que eu gostava muito, mas cuja relação de nomes e discos eu perdi.

Um problema que há em ouvir música e trabalhar é se você não tem um equipamento com som muito claro ou se precisa se concentrar muito na sua tarefa. Se montar uma lista grande de discos para ouvir, acabará por não ter nem cinquenta por cento da experiência que a audição de tudo isso poderia lhe proporcionar. Para mim, é difícil sair desse ciclo. No final do dia, tenho algumas horas de folga. Mas, nesses momentos, minha disposição maior é para assistir filmes e ler romance.

segunda-feira, 7 de março de 2022

ANDRÓIDES SONHAM COM OVELHAS ELÉTRICAS?

Ontem comecei a leitura de Andróides sonham com ovelhas elétricas?. Esse romance foi publicado em 1968 por Philip K. Dick, que já era autor premiado na ficção científica. Andróides ficará famoso para o grande público com sua adaptação para o cinema Blade Runner: o caçador de andróides

Um dos meus principais passatempos são filmes de ficção científica. Principalmente de extraterrestres e de inteligências artificiais. Agora veio a curiosidade por literatura de ficção científica.  

O romance já ficou interessante a partir de uma descrição de episódio apocalíptico do fim do primeiro para o começo do segundo capítulo. Parece que na década de 90 do século passado, nosso mundo entrou em uma guerra nuclear. Para um azar menor da humanidade, havia planetas para onde os sobreviventes poderiam emigrar. Tinham direito a levar, de graça, um andróide para os servir para o que quer que fosse. Rick Deckard (que vai ser interpretado por Harrison Ford no filme) é um dos milhares que teimam em permanecer na Terra. Em meio a chuvas e poeira radioativas, tinha que fazer sempre exame para atestar sua saúde para as autoridades. Não saía do planeta decadente por causa de seu emprego: caçar andróides. Como ganhava comissão, seria esse trabalho que o ajudaria a realizar o seu sonho de adquirir um animal de estimação que não fosse andróide. Os bichos eram raros depois da guerra e traziam status ao possuidor. O que ele tinha era uma ovelha elétrica. Ela substituía a real que ele perdera.

Para criar uma ilusão de entrada na mente criativa de Philip K. Dick, assisti, logo no início da leitura do livro, 2001: uma odisseia no espaço. O filme de Kubric foi lançado no mesmo ano de Andróides. Tirando os vinte minutos finais - que custo a apreciar até hoje -, dá para perceber o quão convincente era Kubric nos designs das aeronaves e na atmosfera para os padrões até atuais. Pelo menos por tudo o que acompanho desse tipo de filme. Por isso que vou cobrar do livro de Dick o mesmo alcance, mesmo a uma distância de mais de meio século de tecnologia.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

2034

Laguna morrerá aos cinquenta e sete anos. Há alguma coisa a ser feita quando a vida deixa de ser interessante. Calcular vinte anos para o fim faria com que o que restasse da vida tivesse mais valor. Amar de uma maneira melhor. Ou não se importar tanto com quem vai embora. Vinte anos é quase como não se houvesse futuro. Isso existe para o garoto que se vê como o pai de amanhã. E esse não é um tempo contado. Quanto se sabe a ocasião da morte, haverá maior felicidade se coisas boas puderem se repetir. 

Por mais verme que se possa sentir, ainda pode haver orgulho suficiente para se desejar o conforto básico de um animal. Agora, Laguna sente que é ingrato. Sim, ainda se apega a uma felicidade de décadas atrás. Isso é lucro para quem não quer voltar atrás. Ele vê como lucro o que vem do passado. 



II



Especular um prazo para uma felicidade definitiva é como dar uma última chance a ela, colocá-la na parede. Laguna é exigente. Não aceita que uma época perfeita até em suas dores tenha tido um fim.

         Mas, e se contar o tempo for como contar o dinheiro necessário na hora de programar uma viagem tão esperada? É isso, Deus! No fundo, Laguna nunca desistiu da vida. Não que isso seja algo que ele goste de ensinar. Já há muitas pessoas inteligentes no mundo.  Na verdade, essa resistência é como o esforço do garoto em pedir água e comida em um país estrangeiro. Instinto. O que falta é que as coisas não sejam como a corrente de água, tão previsível. Laguna quer que sua vida seja algo que possa causar comoção seja qual for a parte dela sobre a qual ele reflita. 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

EM ALGUMA BALADA

EM ALGUMA BALADA


Há muito dinheiro em jogo em certas coisas. Não adianta pegar aquela menina legal se não tiver gasolina. Até porque dá para meter no banco de trás.
         Ela não se importa, pois quer destruir os escrúpulos na medida em que os homens a respeitem, mas continuem querendo transar com ela. Sim, o sexo pode ser comentado dessa maneira prática. Pode-se sorrir com certa condescendência ao se contar o quanto aquele cara da noite passada é desprezível.
         O dinheiro é uma espécie de pau. E dos bons, pois parece funcionar sozinho. Aquele tênis hipnotiza. É só não ser muito otário. Os sorrisos e os abraços virão logo. E uma garrafa cara continuará a garantir a noite.

         E o cara olha sorrindo para os amigos para verificar o sucesso deles e o próprio. Ele não sairá perdendo, de qualquer maneira, pois dirá que furou. E, por incrível que pareça, os amigos não terão a mínima dúvida. Ficarão até felizes.

HOWE



Ela ainda não se recobrou da surpresa. Quem ela achava ser seu amigo, a avisara de que nunca mais dormiria depois do que tinha para lhe contar. Sua mãe tinha sido abusada por anos durante a adolescência.
Howe se pergunta por que não poderia ter sido com ela, se não seria culpa sua. Agora, pouco importa se está passando pela rua onde estão as lembranças de seus primeiros amores. O fato de não estar com eles é, agora, culpa sua.

Amanhã é dia de ir à faculdade. Mas já não há futuro. Ela nem consegue pensar no quanto poderá sofrer. Sem amigos e festas. Sem voltar para casa e encontrar a família. Como alguém  pode viver no mundo sem o amor dentro de si?! Enfim, ver sua beleza no espelho também não adianta. Howe não quer que a noite seja tão longa.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Funeral

I
"Onde está o meu corpo?! Quem me devolve?! Eu queria tanto ficar com ele. Ainda essa vez! Nesse mundo, em outro mundo; ao menos dentro de mim.
O que há em mim? Qual a forma? Beleza não há em mim. Ainda essa vez, murmuro nesse deserto. O sonho enlouquece?
II
Não sinto os demônios e males que esperava. E nem o pesar pelo sol que já amei. Não há beleza, emoções e lembranças. Tudo de que me lembro se tornou pó. Deus não mais existe. O sonho enlouquece...
III
A campa é de pedra. Alguém está deitado e olha para o céu. Nada se move. Um homem caminha em volta e não se importa. Não acredita mais no vazio do coração. Ele foi preenchido com as rochas de todas as multidões e coisas inúteis desse mundo. Ele sai e um portão se fecha"

VINGANÇA

Você gostaria de ser uma boa pessoa? Não é justo sentir paz quando quem você ama não atinge seus objetivos. Você terá sorte se não pisarem na sua desgraça. 

UM QUARTO




Por maior que ele seja, o amor é basicamente solitário? Ou não se quer reconhecer isso? Enquanto se está com quem se ama, pode não haver tempo para perceber certas verdades. Mas o que se pode pensar quando se está só? Até onde será ilusão o darmos ao outro o que temos de mais caro? Levar isso tão a sério pode ser uma maneira de não perder esse amor.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Performance de "Maria Madalena" - Ensaios



Ensaiei durante dois dias para fazer o teste no Estação Madame hoje. Pretendo mostrar uma performance da figura de Maria Madalena. Usarei figurino. Um vestido negro medieval e uma colcha também negra. Esta servirá como cenário.
Meu objetivo é ser aprovado para mostrar meu trabalho na próxima edição do evento, que é na virada de quinta para sexta-feira. Pelo menos, entendi que já poderia me apresentar nessa ocasião.
Não sei se consigo passar, mas verificarei a possibilidade de continuar me aprimorando e fazendo teste até conseguir. Preciso fazer cada vez mais teatro para render no curso puxado que faço no ETA (Estúdio de Treinamento Artístico). Até estudante universitário faz essa escola por causa do seu rigor.  Eles também esperam que o aluno busque o máximo de experiências possível fora das aulas.
Fico curioso se for o caso de eu levar Maria Madalena regularmente para a cena.  Até que ponto eu poderia melhorar? Sentirei mais orgulho da personagem? Eu só fiz uma apresentação, que foi na segunda edição do Sarau no Jardim de Perséfone, em março desse ano.
 Nos últimos ensaios, introduzi coisas novas e me tornei consciente de outras que poderia melhorar. No segundo caso, aumentar a força da voz, variar a expressão facial e aproveitar melhor o espaço da cena para a movimentação não se tornar repetitiva e isso contribuir para um eventual desinteresse do público.
Quanto às novidades, elas têm muito a ver com o que treinei no ETA. Por exemplo, não dar as costas para o público. Outra, deixar o rosto sempre visível para ele. Na minha interpretação dessas orientações, o objetivo é trabalhar captar ao máximo a atenção do público. O método de que deriva esses exercícios é o do realismo de Stanislavski, que visa a produzir na audiência a ilusão de o que está sendo mostrado na cena ser muito parecido com a realidade. Certamente, não é um teatro experimental. Calhou de eu me predispor a essa visão de atuação por conta de, há alguns meses, ter interrompido o contato com literatura experimental e estar me dedicando a projetos com romances do século XIX, mais clássicos.
A mais importante inovação é, indubitavelmente, o improviso. O texto era o mais importante no passado. Agora, ele funciona como base, mas não exige uma declamação literal. Com o improviso, posso inserir mudanças no texto em plena apresentação. Lógico, desde que não saiam da lógica da personagem e da ideia central.  Para o ETA, improviso é tudo. E vamos lá.

sábado, 4 de outubro de 2014

ETA - Ensaio em 05/10/2014

ETA


Amanhã começo a ensaiar com o grupo com que apresentarei um espetáculo no final do semestre no ETA (Estúdio de Treinamento Artístico). As três primeiras aulas me pareceram eliminatórias. Minha confiança no meu talento artista chegou ao limite. Improviso é a base da formação do ator nessa escola. Para mim, improviso era a pior coisa possível para um artista. Quer dizer, se ele conseguir fazer dar certo, está no lucro, levando-se em conta a delicadeza da situação. Mas não seria ocupado muito tempo de sua preparação com o improviso. Por incrível que pareça, tive que aprender a usar o bom senso e a relativizar algumas coisas que o ETA, teoricamente, exigia no material de aula que eu tinha recebido, além das informações preciosíssimas do site. Agora é hora de equilibrar o Laguna sistemático e o Laguna do FDS.
É só no grupo que o improviso, pensei, pode fazer sentido para mim. Será mais fácil guardar cara, nome, voz, corpo, movimentação, o jeito, em geral, da turma. Sem contar que há merdas, alegrias e rotinas que podem acontecer por conta das relações pessoais, obviamente. E isso por alguns meses.
Conseguimos fechar um local para ensaiar e temos, ao menos, duas  ideias para escolhermos uma para nossa primeira cena. Nos reuniremos às onze horas e já iremos direto para o ETA, às 13h30. Uma colega propôs a iminência do encontro entre um, digamos, nerd solitário e uma garota maravilhosa. Pecado meu, mas não consegui entender a ideia da outra colega. Sei que o tema também era falha de comunicação em redes sociais. Mas era bem mais complexa a proposta. Se se mantiver as coisas como estão, escolherei com certeza a inciativa da primeira moça. Daria para fazer, dessa forma, um trabalho mais concentrado, nesse contexto de tantos aspectos a serem tratados.
  É um ponto eu não ter muita noção de feriado ou algo equivalente. Votarei e logo irei ensaiar. Durante toda minha vida na universidade, minha folga era no final de semana. Não “entendo” quando o feriado é na semana. Tanto que até hoje, só em último caso eu abro mão do final de semana.
Nossa cena deverá ter cinco minutos e a mostraremos na aula. Fico curioso a respeito de duas horas ser tempo de sobra para quase dez pessoas discutirem ideia, personagem, conflitos, improvisar, etc. Quer dizer, é muito intenso, mexe com o coração, fazer esse monte de coisas e com um monte de gente? Nunca tive a experiência. Imagina um trabalho desses sendo impiedosamente julgado por professor e alunos. E digo impiedosamente porque também faço o mesmo.  É comum se ouvir nas aulas “está uma bosta” da parte do professor. Eu lembro de um outro professor que tive. Se não comprometer a autoconfiança, dá para ter bom humor.  

sábado, 27 de setembro de 2014

Visita

I
Acorda-se de um sonho com a visão embaçada. Ainda não acabaram seus efeitos, seus desejados efeitos, e olha-se para o céu brilhante - mas enevoado. Uma visão embaçada, um brilho nos olhos de fantasma. São olhos vaidosos, solitários. Uma brilhante solidão. Sorri-se como se nada ao redor importasse. Não há dúvida de que seja vaidade: transformar o céu na própria imagem confusa que vem do interior.
É o passado, transformado pela imaginação de seu desejo sombrio. Pode ser uma ilusão. E ela pode demorar se à volta estão as pessoas a quem se ama. (Todos veem seus olhos vidrados).
Será um passado ilusório, mas completo - mais que completo. Sabe-se que o futuro existe. Mas não há necessidade alguma de se pensar nele.
O que há, no fundo, não é o amor, mas a vaidade dessa brilhante ilusão. Não é o amor de si próprio. É a negação da própria vida ao se controlar o que está dentro e transformá-lo em rabiscos que podem ser aperfeiçoados infinitamente. Rabiscos próximos às pessoas a quem se ama. Um mundo dentro da morte; mas o amor, à reboque.

II

Surdo aos que o amam, o sonhador desvia o olhar para alguém que está longe, mas em sua direção. Eles se olham e aparentemente se conhecem. Porém, estão impassíveis. O sonhador e o visitante dirigem-se a uma sala que surge no ar impregnado com a visão embaçada do primeiro. Lá encontram apenas duas poltronas, sentam-se conversam:

- Você lembra dessa sala?
- Sim, foi há muitos anos. Mas havia muita gente e estávamos em festa. Você me surpreendeu, vestido de uma maneira completamente estranha para a ocasião e se dirigindo a mim como se falasse em um poema.
- Não havia o que fazer. Nem agora há. Na época fez todo o sentido para você acreditar que nossos corpos podem desenvolver uma eternidade específica. Quer dizer, dependendo de como a luz incide em nós, somos velhos ou novos. Também falei sobre isso não ser um dom. Como é comigo, o seu coração encheu-se de um desejo de autodestruição constante. Uma angústia sem limites, pois não podemos mais tirar a própria vida. Como você se sente agora?
- Minha vida não dependia mais de mim, eu era um autômato. Porém, não enlouqueci para que mantivesse a consciência. Algo fez isso comigo. Se é que o tempo é para nós o que é para os outros, a única coisa que podia fazer era contemplar minha desesperança. Quer dizer, logo fui tomado pela convicção de que não haveria mais esperança e esse sentimento não cessaria. Minha rotina passou a ser a reflexão completamente inútil sobre essa desesperança.  O que eu posso dizer? Para haver reflexão, deve haver algum espaço para a serenidade e a paz. No entanto, esses sentimentos estão contaminados por causa de todo esse processo que você descreveu. Essa paz e serenidade são, agora, impressões de uma morte que está sempre por vir. Como você está?
- Nosso encontro é fortuito e inútil. Mas estamos conversando. Quando você apareceu, eu tinha acabado de sonhar. Eu pensava sobre o amor e em como sou uma pessoa ruim. Não sinto pesar, pois você sabe que nosso hábito de refletir sobre sentimentos afasta as pessoas, nossas emoções são artificiais. De tanto pensar, o amor tornou-se uma espécie de minério. Aquele mesmo que vivi e o que continuamente destruo. Eu não amo as pessoas. E elas se enganam por algum tempo. Como vivo um contínuo sentimento de autodestruição, não tenho esperança alguma em minha bondade. Não dá mais para acreditar que há a bondade nas pessoas e admirar isso, amar isso.
- Eu também não tenho interesse nenhum naquilo que faço. Realmente, nosso encontro é fortuito e inútil. Não te procurei, não te amo. Você também não me ama. Olhamos um para o outro apenas para ver nossa desesperança. Sou tão indiferente que não há em mim absolutamente nenhuma possibilidade de acreditar que, supondo a existência de Deus, haja nele ainda algo de bondade e amor. Eu não me comovo. Isso só me veio à mente agora porque somos não um, mas dois desesperados aproveitando essa ocasião para, juntos, aprimorarmos nossa convicção de que, em um momento, simplesmente não entenderemos as outras pessoas.

Rolê

Em quase dez anos, eu nunca imaginei que poderia ter tanto envolvimento com o rolê. Semana sim, semana não, eu ia ao Madame Satã e congêneres. A minha desculpa para não ser mais assíduo era que meu corpo não se adaptava muito a essa rotina. Porém, analisando essas duas últimas sextas-feiras, tenho que rever meus conceitos.
         Em primeiro lugar, dois programas muito bons. No primeiro,  discotecagem e companhia excelentes. No segundo, dançando como um louco e, não atinava com isso, escrevendo muito depois que cansei de dançar por horas.
         Além disso, meu condicionamento físico está bom. O fato de o teatro ser a minha vida faz com que eu procure estar com a maior disposição possível para acompanhar, entre outras atividades, os exercícios físicos que realizamos no ETA (Estúdio de Treinamento Artístico) no domingo.
         Dessa forma, e me programando bem financeiramente, dá pra fazer algo todo final de semana. Nunca me imaginei aproveitando o rolê dessa maneira.

         Falei sobre a contribuição de meu envolvimento com o teatro nessa nova experiência com a noite. Porém, escolhi um dia que simplesmente bate de frente com a regra, que é o entretenimento virar de sábado para domingo. Sexta-feira, só no Madame, ou em casos excepcionais - como foi hoje -, o Cambridge.  Simplesmente perco noventa por cento do que poderia curtir. Fora outros programas que não tem nada a ver com o rolê, repito, só no Madame tenho alternativa. Vou ter que me virar.

sábado, 20 de setembro de 2014

Instante

Falsa beleza e falsos pensamentos e sentimentos. Quem pode julgá-los? Quando pode julgá-los? Quero acordar amanhã. Uma lembrança pode valer por uma vida inteira? Despedir-me de uma boa lembrança. O que é belo pode não brilhar, mas ser apreciado por quem deixa que ele siga seu próprio rumo.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Joana

Fonte Times New Roman, tamanho 16, espaço duplo e três folhas. É a parte material do texto em que vou basear meu monólogo. Seu nome é "Joana". Um dos problemas que verifiquei depois de algumas declamações é que as frases são muito longas. Aí, caio novamente na tentação de poesia lírica, que, no momento, dificultaria minha formação como participante de companhia de teatro. Pela primeira vez, fiz uma pesquisa de contexto bem maior do que em toda minha vida. Creio que faltaram algumas coisas, mas, por ora, é o que dá para fazer.
Por conta das entonações que quero dar, alguns movimentos e, o que chamo de música interior, Joana é uma personagem poética, dependente da poesia, do que autônoma enquanto constituição histórica. Quer dizer, ela só passa a ganhar vida para mim enquanto as palavras que escrevi me estimulam. É a partir do "barato" das palavras que me animo e construo a personagem dentro de mim. O que é que isso vai virar? Eu não sei se tomarei espaço de gente que tenha mais o que mostrar do que eu. Porém, vou me jogar no palco. Diante de algumas coisas em que estou pensando, e da atitude que venho assumindo em relação ao teatro ser meu destino, me permito a arrogância. Quem vai se ferrar, na pior das hipóteses, serei eu mesmo. Se é que dá para falar em se ferrar; se é que isso não é relativo.

É estranho, mas essa atitude que julgo mais independente é algo com que nunca tinha atinado antes. Tenho um projeto de vida depois de que o último foi elaborado há mais de dez anos. Porém, naquela época, eu considerava o reconhecimento externo. Não que isso não seja importante agora, mas é que fiz muito tentativa-e-erro e estou escolhendo ser feliz com muito mais consciência do que antes e, no limite, sabendo que ninguém irá me ajudar. Nessa situação, parece que a “luta pela sobrevivência” faz com que eu explore mais determinadas maneiras de tomar decisões e de me planejar para levar o projeto avante.

Futuro

Este é o texto em que pretendo basear meu monólogo no ETA


"Eu faço de tudo para me sentir bem com o pessoal da favela em que moro. Mas, uma hora, estarei mentindo para os outros e para mim mesma. Cada vez mais, a cidade me parece o lugar em que gostarei de passar o resto da minha vida. As ruas são mais largas, há gente por todos os lados e sempre vejo coisas novas. Tenho medo de parecer metida, mas fico ansiosa pelo domingo. Colocarei a roupa de que mais gosto e irei para o centro. Assistirei missa e, depois, tomarei sorvete na praça. Os cinemas, o Passeio Público, a Rua do Ouvidor, é a glória tudo isso!
Para todo mundo da favela, passo muito tempo no centro para fazer safadeza, para encontrar lugar para ficar longe de todo mundo e dos meus pais. No fundo, eu não me esqueço de onde vim, não tenho nojo. É por isso que me magoo quando me dizem essas coisas. Parece que estão me expulsando de uma vez e eu não queria que fosse assim.
         Estou perdendo as amigas da infância, pois quase todas já estão casadas. Eu sei que também deveria casar logo. Quero ter família, filhos e alguém com quem me sinta bem. Mas é coisa séria e não posso errar. Abri mão de muita coisa para estudar para viver em um lugar melhor. Todo mundo aqui também quer isso. Mas não adianta esperar que os outros nos deem coisas boas, pois vivemos em um buraco. Eles pensam que aqui só tem o que não presta.
         Eu preciso fazer alguma coisa para continuar a conquistar o que eu quero. Mas estou sozinha. Sei que uma hora vai acontecer. E apareceu o João. Não aguento. Ele é bonito, gentil e sinto que tem algo por mim que não é só interesse de homem. Mas também estou com medo. Seu eu me abrir demais, ele vai ser mais forte e perderei o controle da minha vida. Como vai ser depois? Ficam olhando para gente aqui na Estação do Lucas e dando risada.
         Não queria desconfiar nem um pouco dele, lá no fundo. Mas o João muda a conversa do nada, fica olhando em volta e começa a ser safado. Fico confusa, pois parece outra pessoal. Ele me pede  coisas absurdas, fora de hora! Eu não posso me entregar assim! Quem ele pensa que sou?! Por que não continua a ser tão doce. Poderia ficar muito mal falada, mas ficaria com o João se as coisas não forem como eu quero. Mas e se ele não quiser ficar comigo se conseguir fazer essa loucura antes? Ele tem um bom emprego e mostra interesse quando falo que quero fazer concurso público. Mas isso não é suficiente, eu acho.

         Não tenho coragem para falar essas coisas para ninguém. Meus pais não vão gostar do jeito do João, e minhas amigas vão me deixar. Ele está impaciente e estou enlouquecendo. Tem esse doutor que dá conselhos para mulheres nesse jornalzinho. Não aguento. Serei direta porque quero uma resposta urgente." 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Monólogo

"(...) os atores cuidam que a plateia não compreende sem que eles aumentem a carga e por isso se desmancham em gesticulação" (Aristóteles)



Dentro da filosofia do ETA, é erro grotesco a interpretação forçada - a exagerada, nem se fala... Já temos monólogo para a aula deste domingo e quero conhecer um pouco minha voz e cuidar dela. O objetivo é soar o mais realista possível. Nem tenho que atuar em grupo, a cena é minha.

domingo, 14 de setembro de 2014

Marcas

Você vê a beleza de dia, de noite e em seus sonhos. Mas te amaremos para sempre?  Eu te amarei para sempre? Você nos verá toda a sua vida. Ela pode ser longa e não encontrarmos outra maneira de te ver.

sábado, 13 de setembro de 2014

Alma

Ele cobriu os meus olhos com sua mão quando me viu de costas. Eu sabia que era alguém que eu amava. Eu o amo. Ele leu o meu diário e não pude fazer nada. Esse é nosso segredo, meu amor.