sábado, 13 de setembro de 2014

História do amor no Ocidente

"Precisamos de um mito para exprimir o fato obscuro e inconfessável de que a paixão está ligada à morte e leva à destruição qualquer que se entregue completamente a ela. Isso porque desejamos salvar a paixão e adoramos essa infelicidade, ao passo que as morais oficiais e a nossa razão as condenam" (Denis de Rougemont)


Eis um dos pontos altos de minha criatividade! "História do amor no Ocidente". Um livro perigoso para quem se apaixona, para quem é imaginativo ou para quem é os dois. O objeto do amor é o próprio sentimento e não uma pessoa. É uma das obras que valeram boa parte da minha formação. Tenho quase trinta páginas de anotações e não usei nada na faculdade. Porém, é um livro para o sentimento, para a poesia e, ao final de contas, para a vida. 
A proposta de Denis de Rougemont é bem interessante para quem estudou Trovadorismo na adolescência. Por baixo daquele sofrimento dedicado à dama inacessível há ideias de uma seita cristã, os cátaros, cujo grupo chegou a ser chamado de "Igreja de amor".  A seita foi completamente exterminada no século XIII pela Cruzada Albigense.
O que Rougemont quer provar é que a paixão, principalmente a paixão platônica (já "resolvida" na Era da Psicologia), é um sentimento "construído" por crenças religiosas. Para os cátaros, a vida do corpo era um princípio do Mal. Uma das maneiras de combatê-lo é uma visão sobre o amor na qual o homem, através de um ritual de vassalagem, submissão, jura dedicar seu sentimento à dama que lhe concede esse favor. Porém o amor desenvolvido em seu estado considerado puro, sem a interferência da realização sexual. Havia mesmo o desejo de adiantar a morte para continuar o gozo desse sentimento no espaço privilegiado do céu, em que não há mais o corpo humano:

"De todos os males, o meu difere; ele me agrada; regozijo-me com ele; meu mal é o que desejo e minha dor é meu bem-estar. Não vejo, portanto, de que me queixar, pois meu mal advém de minha vontade; é meu querer que se torna meu mal; tenho tanto gosto em querer assim que sofro prazerosamente, e há tanta alegria na minha dor que me delicio com a minha doença" (Chrétien de Troyes, século XII).

Os participantes desse culto não eram necessariamente marido e mulher. Dessa forma, uma das possíveis consequências da adesão ao catarismo era a condenação do casamento, uma vez que o fiel não poderia se unir sexualmente a ninguém. O casal herético poderia constituir elemento de um real triângulo amoroso. Com o fim de ressaltar esse caráter clandestino do amor cortês, quero fazer uma adaptação da citação que Rougemont faz de um trovador francês:


"Deus, é a Aurora! Como Ela vem depressa" Como gostaria, meu Deus, que a Noite não findasse, que meu amigo pudesse permanecer junto a mim, e que a Sentinela jamais anunciasse o romper da Aurora! Deus! É a Aurora. Como Ela vem depressa!"

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