sábado, 27 de setembro de 2014

Visita

I
Acorda-se de um sonho com a visão embaçada. Ainda não acabaram seus efeitos, seus desejados efeitos, e olha-se para o céu brilhante - mas enevoado. Uma visão embaçada, um brilho nos olhos de fantasma. São olhos vaidosos, solitários. Uma brilhante solidão. Sorri-se como se nada ao redor importasse. Não há dúvida de que seja vaidade: transformar o céu na própria imagem confusa que vem do interior.
É o passado, transformado pela imaginação de seu desejo sombrio. Pode ser uma ilusão. E ela pode demorar se à volta estão as pessoas a quem se ama. (Todos veem seus olhos vidrados).
Será um passado ilusório, mas completo - mais que completo. Sabe-se que o futuro existe. Mas não há necessidade alguma de se pensar nele.
O que há, no fundo, não é o amor, mas a vaidade dessa brilhante ilusão. Não é o amor de si próprio. É a negação da própria vida ao se controlar o que está dentro e transformá-lo em rabiscos que podem ser aperfeiçoados infinitamente. Rabiscos próximos às pessoas a quem se ama. Um mundo dentro da morte; mas o amor, à reboque.

II

Surdo aos que o amam, o sonhador desvia o olhar para alguém que está longe, mas em sua direção. Eles se olham e aparentemente se conhecem. Porém, estão impassíveis. O sonhador e o visitante dirigem-se a uma sala que surge no ar impregnado com a visão embaçada do primeiro. Lá encontram apenas duas poltronas, sentam-se conversam:

- Você lembra dessa sala?
- Sim, foi há muitos anos. Mas havia muita gente e estávamos em festa. Você me surpreendeu, vestido de uma maneira completamente estranha para a ocasião e se dirigindo a mim como se falasse em um poema.
- Não havia o que fazer. Nem agora há. Na época fez todo o sentido para você acreditar que nossos corpos podem desenvolver uma eternidade específica. Quer dizer, dependendo de como a luz incide em nós, somos velhos ou novos. Também falei sobre isso não ser um dom. Como é comigo, o seu coração encheu-se de um desejo de autodestruição constante. Uma angústia sem limites, pois não podemos mais tirar a própria vida. Como você se sente agora?
- Minha vida não dependia mais de mim, eu era um autômato. Porém, não enlouqueci para que mantivesse a consciência. Algo fez isso comigo. Se é que o tempo é para nós o que é para os outros, a única coisa que podia fazer era contemplar minha desesperança. Quer dizer, logo fui tomado pela convicção de que não haveria mais esperança e esse sentimento não cessaria. Minha rotina passou a ser a reflexão completamente inútil sobre essa desesperança.  O que eu posso dizer? Para haver reflexão, deve haver algum espaço para a serenidade e a paz. No entanto, esses sentimentos estão contaminados por causa de todo esse processo que você descreveu. Essa paz e serenidade são, agora, impressões de uma morte que está sempre por vir. Como você está?
- Nosso encontro é fortuito e inútil. Mas estamos conversando. Quando você apareceu, eu tinha acabado de sonhar. Eu pensava sobre o amor e em como sou uma pessoa ruim. Não sinto pesar, pois você sabe que nosso hábito de refletir sobre sentimentos afasta as pessoas, nossas emoções são artificiais. De tanto pensar, o amor tornou-se uma espécie de minério. Aquele mesmo que vivi e o que continuamente destruo. Eu não amo as pessoas. E elas se enganam por algum tempo. Como vivo um contínuo sentimento de autodestruição, não tenho esperança alguma em minha bondade. Não dá mais para acreditar que há a bondade nas pessoas e admirar isso, amar isso.
- Eu também não tenho interesse nenhum naquilo que faço. Realmente, nosso encontro é fortuito e inútil. Não te procurei, não te amo. Você também não me ama. Olhamos um para o outro apenas para ver nossa desesperança. Sou tão indiferente que não há em mim absolutamente nenhuma possibilidade de acreditar que, supondo a existência de Deus, haja nele ainda algo de bondade e amor. Eu não me comovo. Isso só me veio à mente agora porque somos não um, mas dois desesperados aproveitando essa ocasião para, juntos, aprimorarmos nossa convicção de que, em um momento, simplesmente não entenderemos as outras pessoas.

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